sexta-feira, 8 de julho de 2011

DESCONGESTIONANTES NASAIS - USO E DEPENDÊNCIA



Era para ser um final de tarde romântico, mas a universitária Diana Castro interrompeu, abruptamente, um beijo. Nisso, o rapaz que a beijava, preocupado, perguntou: "Está tudo bem? Você está passando mal?" E foi aí que Diana respondeu: "Mais ou menos, é que eu esqueci o meu descongestionante em casa e fico com falta de ar só de pensar que estou sem ele". Num primeiro instante, o relato pode parecer cena de filme de comédia ou de livro. Mas é a pura verdade e, pior, faz parte da realidade de mais de um terço da população mundial. Aparentemente inofensivos, os descongestionantes causam dependência química e podem até mesmo atrapalhar a vida pessoal do paciente.

A dependência pelas gotinhas já até resultou na criação de comunidades em um site de relacionamentos. A estudante Carolina Thibes, de 21 anos, criou, em maio de 2004, a comunidade "Vício: descongestionante nasal". Segundo ela, até a data não havia nenhum fórum relacionado ao assunto, onde as pessoas pudessem trocar experiências sobre sua dependência. Carolina é "usuária" deste tipo de medicamento desde os onze anos de idade e revela que chega a requisitá-los cerca de dez vezes ao dia. "Quando criança, tinha muitas crises alérgicas, passei a usar os descongestionantes e os uso até hoje. Foi sempre natural para mim, carregar o vidrinho para aonde ia. Não posso dormir se ele não estiver na mesinha de cabeceira, olhando para mim. Acho que minha dependência virou psicológica. Se eu sei que estou sem, o nariz entope na hora!", conta.


“Na hora de dormir sinto muita falta de ar e não consigo ficar sem pingá-lo. Sei que o descongestionante é paliativo. Desentope na hora, mas volta a entupir”


Foi por herança familiar que a estudante de odontologia Fernanda de Castro Silva adentrou no universo dos descongestionantes. "Eu estou habituada desde pequena a ver minha mãe dissolvendo Sorine com soro fisiológico e redistribuindo para a família. Aos treze anos de idade, comecei a usá-los e não parei mais", conta. O desespero já levou Fernanda a sair no meio da madrugada em busca de uma farmácia para comprar o medicamento. "Já aconteceram algumas situações constrangedoras e engraçadas comigo, como estar na casa de uma amiga e, na ausência do remédio, sair para comprar com cara de maluca viciada", ironiza.

Funcionamento

Diante de um resfriado ou de um quadro alérgico, os cornetos - estruturas esponjosas responsáveis pelo aquecimento e umidificação do ar que respiramos - ficam inchados, dificultando a passagem do ar. Usados para aliviar a obstrução do nariz, os descongestionantes se dividem em dois: os de uso tópico - em gotas ou spray - e os de uso oral - comprimidos e cápsulas. Ambos agem contraindo os vasos capilares e diminuindo o fluxo de sangue no interior dos cornetos. Com menos irrigação, eles diminuem e o espaço no interior do nariz torna-se maior, facilitando a passagem do ar e gerando a sensação de nariz desobstruído.

No entanto, de acordo com o otorrinolaringologista e presidente da Academia Brasileira de Rinologia, Renato Roithmann, o efeito desses medicamentos são temporários e podem causar a chamada rinite medicamentosa (dependência química). "Os descongestionantes de uso tópico induzem a um efeito rebote. O rápido descongestionamento que produzem é substituído por uma obstrução ainda maior que a anterior. Isto leva a pessoa a usar novamente a gota ou spray. Se utilizado por mais de cinco dias, os agonistas alfa-adrenérgicos presentes na sua formulação - oximetazolina, nafazolina - podem gerar dependência química", esclarece Renato. Ao contrário dos descongestionantes de uso tópico, os de uso oral não induzem a dependência na maioria das pessoas, mas só devem ser ingeridos sob orientação médica.

Em média, o efeito dos descongestionantes dura seis horas. No entanto, em quadros de dependência química, o organismo solicita doses maiores e em tempos mais curtos, diminuindo o tempo de desobstrução. Esse é o caso da estudante universitária Diana Castro, lá do início da matéria. Ela sofre de asma e rinite alérgica e há mais de dez anos usa os descongestionantes. "Comecei a usá-los porque tinha crises de sinusite. Na hora de dormir sinto muita falta de ar e não consigo ficar sem pingá-lo. Sei que o descongestionante é paliativo. Desentope na hora, mas volta a entupir. Espero um dia não precisar mais deles", desabafa.


Além do risco de dependência química, o uso abusivo dos descongestionantes pode ocasionar outras reações, como quadros de ansiedade, irritabilidade, tontura, dor de cabeça, perda do sono e até de olfato.

Em pacientes de maior idade também são freqüentes os relatos de retenção urinária. Segundo o Dr. Roithmann, os descongestionantes têm uma ligação direta com o coração e podem ser altamente prejudiciais a ele.

"Os descongestionantes são aminas simpaticomiméticas, isto é, são estimulantes do coração e do sistema nervoso central. Nas doses certas, os efeitos são pequenos. Mas, ao se utilizar uma dose maior do que a prescrita pelo médico, podem ocorrer taquicardia, palpitação e elevação da pressão arterial", explica. Além disso, "os descongestionantes destroem os cílios do nariz e atrapalham a produção do muco que serve de proteção para o órgão. Ao interferir sobre o muco que segura a sujeira do ar que entra, o lixo aéreo não é tragado, podendo parar no aparelho respiratório e favorecer o aparecimento de doenças, como a sinusite", esclarece o clínico geral e presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, Antônio Carlos Lopes.

No entanto, antes de abolir de vez os descongestionantes do seu armário de remédios, o Dr. Roithmann esclarece que, em alguns casos, eles são necessários. Desde que usados na dose certa e estando atento às contra-indicações. "Aceita-se o uso do descongestionante tópico por poucos dias na vigência de um processo infeccioso agudo das vias respiratórias nasais, como um resfriado, gripe ou sinusite. Como estes quadros costumam ceder em até uma semana, o uso nos primeiros dias para facilitar o sono pode ser indicado, mas sempre com orientação do médico", reitera.

O uso de descongestionantes é desaconselhável em pessoas que têm aumento da pressão intraocular, pacientes com problemas cardíacos e idosos com aumento de próstata - pois facilita a retenção urinária. Quanto às crianças, os pais devem ficar atentos à dosagem que é bem inferior à dos adultos. A superdosagem pode levar a intoxicações e graves problemas de saúde e até ao infante.

Tratamento

Antes de tratar a dependência dos descongestionantes, é importante conhecer a causa do nariz entupido. Só tendo conhecimento das razões da obstrução nasal é possível traçar caminhos alternativos para se livrar dos descongestionantes. Dentre as causas mais freqüentes de entupimento estão: desvios de septo, adenóides, hipertrofia de cornetos, pólipos, tumores nasais, resfriados, rinite alérgica, sinusite e o próprio abuso dos descongestionantes.

Atualmente existem no mercado soluções mais seguras no trato de uma obstrução nasal. É o caso dos antiinflamatórios tópicos nasais, dos adesivos nasais, e dos medicamentos à base de soro fisiológico.

"A higiene nasal com soluções fisiológicas e os preparados caseiros compostos de água, sal e bicarbonato de sódio costumam ajudar a desobstruir o nariz.

 Elevar a cabeceira da cama auxilia na desobstrução nasal noturna. E o que muita gente não sabe é que manter o peso adequado e praticar exercícios regularmente ajudam a melhorar a respiração pelo nariz", revela o Dr. Roithmann. Em casos como adenóides, desvio de septo e pólipos, a intervenção cirúrgica pode ser necessária.

Para largar o vício dos descongestionantes, às vezes é necessário auxílio de psicólogos. "Algumas dependências são reversíveis com terapia. Outros exigem um atendimento integrado por diversos profissionais. A compulsividade gera sofrimento. Através da psicoterapia é possível investigar as motivações que levam as pessoas a se apoiarem sobre esse vício", esclarece a psicóloga Maria do Carmo Queiroz.

Respire pelo nariz!

O ar inspirado pelo nariz é umedecido, aquecido e filtrado de maneira a evitar que as impurezas cheguem ao organismo. Ao respirar pela boca, essas etapas são quebradas, prejudicando não apenas o sistema respiratório, mas interferindo na própria estrutura facial. Segundo o Dr. Roithmann, pessoas que sofrem com obstrução nasal têm uma grande perda na sua qualidade de vida. "Pessoas que não respiram bem pelo nariz sofrem com a diminuição do olfato e da qualidade do sono. O ronco e a apnéia do sono são agravados. Há irritação na garganta, infecções de vias aéreas e interferência na função pulmonar", explica.

Diante destes quadros, o melhor a fazer é buscar ajuda de um especialista. Ele detém os recursos mais modernos, como a vídeo-endoscopia nasal, capazes de avaliar a obstrução minuciosamente. Tamanha preocupação com o modo de respirar fez com que a Academia Brasileira de Rinologia lançasse este mês uma campanha nacional de conscientização denominada "Respire pelo Nariz e Viva Melhor". A mobilização visa fornecer informações médicas à população de forma simples e objetiva.
Fonte:http://msn.bolsademulher.com/

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